O avesso da pele, de Jeferson Tenório
“O mundo branco havia nos tirado quase tudo e que pensar era o que nos restava. É necessário preservar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo”.
O livro foi uma das minhas melhores leituras de 2021, tanto pelo caráter literário quanto pela reflexões que suscita. Li ainda em agosto e meses depois a obra foi vencedora do Prêmio Jabuti (Romance).
O texto de Jeferson Tenório é fácil de ler, fluido como uma conversa. O tema, no entanto, é brutal. Em seu terceiro livro, ele traz questões sobre negritude, racismo e relações familiares.
Na obra, temos Pedro, nosso narrador, contando a história de seu pai, Henrique, morto em uma abordagem policial em Porto Alegre. Ele monta uma colcha de retalhos memorialísticos a partir de suas lembranças para falar desse pai, professor de literatura. A cada nova lembrança, Pedro cria uma nova percepção sobre o que é ser negro, que até ali na sua juventude, com a pele um pouco mais clara que a de seu pai, não lhe havia sido exposta.
“Naquele momento você era apenas um corpo negro”.
Ao mesmo tempo em que conta a história do pai, Pedro também nos apresenta momentos da vida da mãe, mas é talvez quase no final de sua narrativa que Pedro chega também a compreensão das diferenças entre ser um homem negro e uma mulher negra.
“O que você tem que compreender é que os homens negros sofrem suas violências. E que as mulheres negras sofrem outras. Algumas são parecidas. Mas, veja, somos diferentes. Nem sempre as causas são iguais”.
Com esse relato Tenório escancara a dura realidade de que ser negro no Brasil é estar fora do lugar.
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FICHA TÉCNICA
Título: O avesso da pele
Autor: Jeferson Tenório
Editora: Companhia das Letras; 1ª edição (10 agosto 2020)
Número de páginas: 192 páginas
ISBN-13: 978-8535933390
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